Morhan Nacional:

Meu Natal Infantil* por  Amilcar Del Chiaro Filho  Às vezes a minha vida se assemelha a um carrossel, girando e passando pelos mesmos lugares. O carrossel me faz lembrar a infância, em que pouco desfrutei desse divertimento, por causa da pobreza. Mas o carrossel que monto agora me leva ao passado, várias décadas atrás, na região do Triângulo Mineiro. Cidade pequena e acolhedora.  Aproxima-se o Natal. O menino de uns seis anos descobre na vitrine de uma loja um aviãozinho de alumínio de uns trinta centímetros de comprimento e com a mesma envergadura nas asas. Paixão instantânea. Todos os dias lá estava ele por um longo tempo a olhar o seu aviãozinho, torcendo para que ninguém o comprasse, até que Papai Noel viesse buscá-lo. Os dias não passavam. As horas pareciam ser puxadas por tartarugas. Mas, a cada manhã, coração em sobressalto corria para a vitrine da loja e os olhos esbugalhados a contemplar o desejado brinquedo. 24 de dezembro. Como todos que ele conseguia se lembrar, foi dormir cedo, pois nunca tinha ouvido falar em ceia de natal, missa do galo, músicas natalinas ou panetone. Ele só sabia que naquela noite mágica o Papai Noel passaria por todas as casas.  Ainda bem que ele não conhecia a tradição de deixar um pé de meia pendurado ou um pé do sapato, pois ele nunca tinha visto uma meia, e ainda não ganhara o seu primeiro par de botinas, aquelas de abotoar. Dormiu e acordou com o aviãozinho em cima da sua barriga. Que alegria. Correu para a rua para mostrá-lo aos coleguinhas e teve o seu primeiro choque. Quatro ou cinco meninos da vizinhança, que costumavam brincar com ele, não ganharam nada, absolutamente nada. Um adulto disse que Papai Noel só visitava a casa das crianças boazinhas. Ele engoliu seco, pois sabia que aqueles meninos eram muito bonzinhos, melhores do que ele até! Mais triste ficou quando viu a mãe de um deles tentar comprar macarrão e massa de tomate fiado no armazém e o homem não vendeu. Seu amiguinho talvez nem almoçaria naquele dia que nasceu Jesus. O menino voltou para casa chorando chutando os banquinhos e guardou o tão precioso aviãozinho. O pai, que era viúvo e estava fazendo inhoque e um doce especial para a sobremesa, estranhou e quis saber o porque daquela brabeza. Ao saber, teve que contar que Papai Noel não existia, e aquelas famílias eram muito pobres, por isso não ganharam presentes. O dono da loja contou-lhe que todos os dias o menino ia namorar o aviãozinho e por isso ele comprou-o. Foi o primeiro contato do menino com a realidade das injustiças sociais. A pergunta ficou na sua cabeça pequenina. POR QUE?  Muito tempo depois ele ficou sabendo o porquê. Porque os homens são egoístas. Comemoram o natal de Jesus deixando crianças sem comida e sem um presentinho. Você aí; você mesmo!  já deu um brinquedo para uma criança que não seja seu filho, neto ou sobrinho? Já deu um brinquedo para uma criança pobre? Se não deu, e se não vai dar, vá festejar o Natal na Conchinchina.   Esta não é uma criação literária, é uma história verdadeira. Eu fui o menino que ganhou o aviãozinho.  Amilcar Del Chiaro Fil
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