Morhan Nacional:

O que levaria uma adolescente de 17 anos a dedicar um longo período de sua vida a ajudar portadores de hanseníase? A resposta está no livro "História sem nome", escrito pela compositora, professora e jornalista, Lenilde Ramos. O relato autobiográfico será lançado no dia 31 de maio, na Morada dos Baís, em Campo Grande. As memórias da escritora se misturam com as do Hospital São Julião, desde os tempos em que ainda era um asilo-colônia para hansenianos, popularmente conhecido como leprosário. O trabalho será lançado às vesperas do aniversário de 70 anos do hospital. "Começo o livro contando a história dos meus pais, que também tiveram de lidar com a doença", explica Lenilde. Segundo ela, tanto o pai, quanto a mãe, tiveram contato com enfermos de hanseníase. "A sogra do primeiro casamento do meu pai teve a doença, isso em um momento no qual surgiam os primeiros leprosários. Com eles, o preconceito e a segregação dos portadores da doença aumentou muito", considera. Lenilde conta que depois do casamento, o pai retornou ao nordeste, e conheceu a mulher que seria mãe da escritora. "Lá, outra vez, conheceram uma família da qual os membros tinham pessoas próximas em um asilo-colônia. Na época, ninguém falava sobre isso. Era motivo de vergonha", lembra. Durante os tempos em que estudava no Colégio Auxiliadora, Lenilde teve os primeiros contatos com pessoas próximas aos portadores de hanseníase. "Eu visitava o Educandário Getúlio Vargas, no qual muitas das crianças eram filhos de pacientes do Hospital São Julião. As primeiras visitas eram com minha mãe, depois, na escola, com a irmã Silvia Vecellio, que posteriormente foi uma das principais responsáveis pela reestruturação do hospital", descreve. Para a escritora, a segunda parte do livro se inicia a partir disso, na qual a dedicação é quase que exclusiva aos internos. "Eu me apaixonei de uma forma por aquele trabalho, foi quase inexplicável. Durante 30 anos, eu convivi com o hospital. Trabalhei como professora, secretária, morei e me casei lá dentro, tive meus dois filhos lá também. Eu gostava de ouvir as histórias, tocar, escrever, descobrir os músicos que viviam ali. Fiz grandes amigos naquele espaço", descreve Lenilde. Segundo ela, tantos anos de vivência serviram para mostrar os bastidores dos leprosários, mas além disso, contar uma história cheia de personagens humanos e esquecidos. "Músicos, pintores, escultores, todos os tipos de artista viviam naquele lugar. São eles quem eu quero resgatar", aponta. Em "História sem nome", Lenilde empreende um resgate da memória de cada um desses personagens que cruzaram sua vida. Contudo, a preocupação em não devassar a intimidade e a privacidade das famílias, fez com que ela optasse por não citar nome algum no livro. "Os personagens aparecem marcados por suas características físicas, sua forma de agir, mas nada além", pontua a escritora. Ligada ao Hospital São Julião até o final da década de 90, Lenilde optou por se dedicar a atividades profissionais nos últimos anos e ao livro que, segundo ela, vem sendo escrito há uma década. Fonte: Correio do Estado - Campo Grande - MS
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